A Palavra na Reforma e Contrarreforma

E não vos conformeis a este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus (ROMANOS, 12: 2).

A Bíblia foi alvo de perseguição. Enfrentou diversos desafios ao longo do tempo. Mas também foi um dos maiores instrumentos da Reforma Protestante. Sem ela, não teria sido possível toda mudança que Martinho Lutero e os pré-reformadores trouxeram a religião cristã. Assim como também o uso de textos religiosos foram fundamentais para blindar a Igreja Católica do avanço do Protestantismo.

Durante o período de trevas (Idade Média), em que a corrupção dominava a Igreja, a Bíblia foi escondida e censurada, ficando apenas à disposição da liderança da época. Como o povo não tinha acesso ao conteúdo das Escrituras, a Igreja contava a “verdade” que lhe parecia ser a correta. Podendo assim, conduzir o povo de acordo com sua interpretação da Bíblia. Compreensão essa que distorcia alguns princípios bíblicos, já que durante muito tempo, o conhecimento e o estudo da Palavra de Deus era exclusivo dos mosteiros, não deixando assim, espaço para questionamentos (MICOLLI, 1989).

Nesse período turbulento, a Igreja Católica fazia uso de livretos para estudo. Porém, a Bíblia não estava na mão do povo.  Se por um lado o uso de manuais ajudou a Igreja Católica a manter o poder durante a Contrarreforma, por outro lado o estudo com textos religiosos foi o estopim para a Reforma Protestante. No período que antecedia a Reforma, era estimulado o uso de textos que explicavam a Bíblia. Segundo Hamesse (1999), as ordens religiosas passaram a incentivar a composição de tais escritos, a fim de evitar erros de interpretação da Bíblia. Os manuais explicativos e de ensino eram diariamente utilizados. Eles ajudavam a fortalecer as doutrinas da Igreja, facilitando a compreensão das Escrituras do ponto de vista católico.  No entanto, tal estudo da Palavra começou a gerar no povo uma necessidade de mudança, de reforma. Então, o mundo começou a ser preparado para enfrentar um dos maiores avivamentos na história da Igreja Cristã.

Na França, eram confeccionados textos para a hora da oração, para fins de meditação. Os membros da igreja refletiam sobre a palavra em momentos que fossem fora da missa. Textos de estudo eram comuns nesse período (SAENGER, 1999). Leituras silenciosas faziam parte da experiência religiosa da época, o próprio Agostinho recomendava tal prática. Um livro que circulava na igreja era “A vida de Cristo”, de Ludolf da Saxônia. O livro ensinava a necessidade de se manter uma comunhão diária com Deus, falando sobre a oração e a importância de estudar a Bíblia.

Com a meditação de trechos da Bíblia, começou um forte avivamento entre o povo. O sentimento de reforma passou a existir. O inconformismo em relação à corrupção do sistema vigente ganhou dimensões nunca antes vistas. Ainda sobre isso Saenger afirma:

A imprensa irá ter papel importante no triunfo final do protestantismo, mas a formulação de ideias religiosas e políticas reformistas e a capacidade das elites europeias para fazer julgamentos privados sobre questões de consciência deviam muito à longa evolução das práticas de leitura iniciadas no final do século X e que teve seu ponto culminante no século XV (SAENGER, 1999, p. 171).

            O surgimento do protestantismo teve a ajuda da imprensa para sua divulgação, mas foi a cultura estabelecida através do estudo dos escritos bíblicos que causou a necessidade de reforma. A mente das pessoas foi preparada para ansiar pelas ideias protestantes. Note que a cultura escrita serviu como ferramenta de divulgação da nova forma de ver a religião que estava por vir. A Reforma de Lutero adotou uma estratégia: divulgar a Bíblia em língua vernácula (língua oficial de cada país). Dessa forma, o povo teria acesso à Palavra de Deus em sua própria língua materna e não mais em latim. A ideia inicial de Lutero era colocar a Bíblia na mão de cada cristão, por isso a Bíblia foi traduzida. O problema é que o povo começou a interpretá-la de forma errada, não houve uma supervisão sobre isso ou a composição de manuais explicativos. O resultado foi, literalmente, uma batalha. Então, com a Guerra dos Camponeses, Lutero restringiu o uso da Bíblia e passou a dizer que o evangelho deveria ser divulgado pela pregação e não pela escrita. Foi exatamente aí que a Igreja Católica ganhou espaço, afinal ela sabia que manuais religiosos foram grandes aliados na divulgação dos ideais católicos no período que antecedeu a Reforma.

A Igreja Católica investiu todas as suas forças no combate à Reforma Protestante, para isso não poupou recursos. Criou várias estratégias de trabalho e entre elas estava a divulgação da fé através da leitura e de pregações da literatura já existente.

Diante das reformas que estabelecem a Escritura como única regra de fé (sola scriptura), o Concílio de Trento reafirmou a importância, ao lado da Bíblia, da tradição, a transmissão oral do conjunto sedimentado dos artigos de fé […] (JULIA, 1999, p. 79).

De acordo com a Igreja Católica, apenas a “Santa Madre Igreja” tinha a capacidade de revelar a verdade que estava na Bíblia. Por isso, produziam materiais impressos que explicavam doutrinas bíblicas. A linguagem desses manuais era acessível à população. Com isso, o número de impressões aumentou e o povo passou a ser catequizado. Através de estudos bíblicos, a Igreja Católica estabilizou o seu poder. A impressão de livros religiosos tomou conta do mercado editorial. Livros de devoção e manuais espirituais serviam para direcionar os fiéis no caminho da salvação. Livros para momentos de oração também eram comuns, já que eram livros de fácil compreensão. A expansão do Cristianismo se deu através da cultura bíblica escrita conforme destaca Júlia:

Essa grande quantidade atesta que no final do século XVIII a aculturação cristã se faz amplamente pelo escrito, tanto mais que um bom número desses textos é destinado de forma explícita às primeiras aprendizagens da leitura nas escolas (JULIA, 1999, p. 100).

 A leitura estava destinada aos iletrados também. Para aqueles que não sabiam ler, havia textos ilustrados, os quais continham as passagens bíblicas representadas por desenhos. As missões utilizaram da mesma forma a cultura escrita como recurso de divulgação da fé, já que os missionários sempre eram acompanhados por livreiros (JULIA, 1999). Apesar de escolher um caminho mais lento, pode-se dizer que a Contrarreforma teve muito sucesso, já que apresentou resultados mais eficazes e duradouros. De outro lado estava a inovação Protestante, com pregações mais lúdicas e acessíveis à população. O que Lutero não sabia é que a memória do povo é curta. Ele usou um caminho rápido e atraente, proporcionando um contato mais leve em relação à Palavra. As pessoas gostavam, mas ao longo do tempo, alguns princípios e valores se perdiam. A Contrarreforma por sua vez optou por doutrinar a igreja. Pode-se inferir que se o Protestantismo tivesse usado esses dois canais de divulgação da Palavra, o da mensagem escrita e o da mensagem falada, o Cristianismo seria, predominantemente, Protestante.

Igrejas que fazem uso apenas de uma pregação falada tendem a cair no esquecimento. Valores e princípios bíblicos devem ser estudados e não apenas ouvidos durante meia hora de pregação semanal. Haja vista a história da igreja e a divisão entre Protestantes e católicos, é possível afirmar que a Igreja Católica só resistiu no século XVI devido ao avanço da cultura escrita que possuía. Algumas igrejas evangélicas nos dias de hoje fazem uso desse recurso de expansão, consequentemente, estão no ranking das maiores igrejas do Brasil.

É preciso entender que a Reforma e a Contrarreforma só tiveram sucesso devido ao uso das Escrituras, seja ela em seu original, seja ela interpretada através de manuais. Tal princípio deve ser observado para tornar os valores cristãos duradouros. A Igreja precisa avançar de forma saudável, com seguidores que não negociem os valores bíblicos e que estejam preparados para a segunda vinda de Cristo. Façamos da leitura das Escrituras uma prática não só de fé, mas um hábito de vida.

 

 


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